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O gosto da chuva

Hoje vai chover, mesmo que a previsão não faça alarde. Vem chuva, estou certo, e julgando pela sua roupa, você sabe também. O tempo já começa a fechar, quando te toco, e vejo a turbulência. Cada um de seus átomos implorando  pra'que eu desça. E não é que estavam certos? você arrepiada, anunciando a inundação. Sinto o cair da chuva, ela tem som,  gosto,  e quentura. Mas não chove lá fora, só em mim, que estou entre suas pernas.

Sobre livros e você

Sabe quando se lê algo tão estonteante, que sua única reação é fechar o livro, e pensar: meu Deus, que maravilhoso! Você flutua, mal cabe dentro do corpo. E você não sabe o que fazer, olha para as pessoas em volta, em um vaga tentativa que elas consigam te entender. É assim que me sinto quando te vejo.

Liberdade

A qualquer momento, seja na fila da padaria, no almoço de domingo, ou trocando a pilha do controle remoto. Você se da conta que nada é real, e o que existe, não existe por si, não é substancial. A estranheza, tão imperativa, se revela, e o rosto tão familiar da amada, a rotina, e até seu nome, são estranhos. É o mundo se revelando, te tornando um desconhecido de você mesmo, quanto mais ele fala, menos você é você.

A terapia e o mar.

Cabe ao psicólogo, o exercício de não se levar tão a sério, e também o de desenvolver a arte de se abster, abrir mão de suas convicções e moldes, e assim como um pássaro, que voa sem destino prévio, voar com o outro. Cabe ao psicólogo, não ansiar pelo desejo de colonização, e deixar o outro ser nada além dele mesmo, e esperar, pela surpresa e pelo o inesperado.  Cabe ao psicologo, a difícil tarefa de, ao mesmo tempo, ser âncora e passe, vento que sopra e tempestade. Cabe ao psicólogo, ter ouvidos atentos, mas em atenção flutuante, pois os pormenores não gritam, mas falam muito. Cabe ao psicólogo, principalmente, se manter à deriva, como um barco lançado ao acaso, e deixar as palavras do outro, nortearem o caminho a ser traçado.
No fim das contas, somos tristes. Quando a música acaba, e o último salto encontra seu rumo. A última tragada, o passo apertado. Somos tristes, no fim. As conversas triviais sobre viagens, filhos e o prato favorito. O interesse supérfluo, esvanece... Seria real? As saias curtas, o perfume e a montagem. O cigarro, álcool e as balas. Isso tudo, porque no fim, somos tristes. Pois eu e você somos tristes. No vazio do silêncio, sem distrações, enquanto só resta a nós, percebemos que fingimos muito bem, para não parecermos tristes.

O primeiro encontro

Hoje é nosso primeiro encontro, e por ser o primeiro, é o mais importante. A áurea proustiana que a envolvo, e consequentemente, que também sou envolvido, que nos afasta do real, leva dias para ser efetiva. Hoje, você é você mesma, não minha fantasia, nem minha doce relação transferencial. O primeiro beijo, toque, olhar, encontro, nós existimos independente um do outro. A ironia do primeiro encontro: te conheço melhor, por não te conhecer.
Hoje fui acometido por uma angustia Por outro lado, me lembrei que acima de tudo é uma nova angustia Os males do passado já não me angustiam mais Ora, se sofro pelo novo também sou outro. Segui.